Falta de políticas públicas voltadas para a região estão no cerne do debate
Pense rápido: quando você vai a um show, espetáculo de teatro ou conferir uma exposição de arte, precisa frequentemente deixar o bairro? Se a sua resposta foi sim, saiba que não está sozinho. Muitos moradores do Betânia ouvidos pela reportagem passam pelo mesmo. Com a centralização de atividades culturais, que ficam restritas essencialmente a bairros da região Centro-Sul da capital, é comum que moradores precisem atravessar a cidade para participar de atividades culturais.
No bairro, há um único centro cultural mantido em parceria com a comunidade católica de Villaregia. As atividades relacionadas ao fomento da cultura, como oficinas de literatura e aulas de violão, entretanto, são voltadas para crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. Um antigo morador do bairro relembra, inclusive, que, hoje está instalado um grande supermercado varejista, já funcionou um centro cultural. “Quando eu era criança, cheguei a fazer teatro lá”, comenta o jornalista Wallace Graciano, de 33 anos.
No geral, os moradores se sentem “órfãos” de mais atividades culturais. O artista Mateus Vinicius Oliveira Azevedo, de 25 anos, por exemplo, considera que as movimentações no bairro são “mortas.” Morador do Betânia desde quando nasceu, ele conta que, uma das poucas manifestações culturais presentes no bairro, chegou ao fim recentemente.
“Havia um rap que acontecia na praça da Amizade todas as quintas-feiras. Vinha muita gente, ficava lotado. Mas acontece que toda a organização ficava nas costas de uma pessoa só. Como ele começou a trabalhar cada vez até mais tarde, o evento chegou ao fim”, relembra. Além disso, ele conta que não viu mais nenhuma atividade cultural parecida com essa no bairro.
Lucas Pereira dos Santos, de 23, que também mora no bairro, concorda. Ele conta que, todas as vezes em que vai a um evento cultural, precisa sair do bairro. “Geralmente, eu vou para debaixo do Viaduto Santa Tereza, no centro, ou para o Barreiro. Lá, existe uma cena forte do rap, mas também que não recebe nenhum incentivo. São as próprias pessoas que participam do evento que precisam organizá-lo”, afirma Lucas. “Em São Paulo, por exemplo, é completamente diferente. Lá, em cada bairro há pelo menos duas praças enormes, onde ocorrem muitos eventos patrocinados pela prefeitura”, diz.
Na opinião de Mateus, é necessário um olhar mais interessado dos governantes sobre as políticas públicas de incentivo à cultura. “Belo Horizonte tem um potencial e um diferencial artístico muito grande. Conheço artistas muito bons que, com um incentivo, poderiam se sair muito bem”, afirma.
A prefeitura de Belo Horizonte foi procurada, em duas ocasiões, através de e-mail, para responder se há políticas públicas de fomento e/ou incentivo à cultura no bairro Betânia ou região. Entretanto, não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.
